quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Distanciamentos de si: Jogando ideias sobre os redemoinhos do contemporâneo 1



A vida é acontecimento. Sempre arriscado escrever sobre a vida. Não pretendo definir modelos e nem profetizar formas de viver. Nas próximas postagens tentarei compartilhar algumas reflexões, indignações e percepções sobre a contemporaneidade, a fim de problematizar algumas questões que parecem importantes de serem retomadas neste momento histórico da existência humana. Talvez seja possível chamar isto de um exercício político sobre a própria invenção de si. Ou em outras palavras, uma análise sobre os distanciamentos necessários para perceber o que estamos fazendo com nós mesmos. Sem a pretensão de entrar em discussões conceituais e filosóficas, espero que a gente leia esta pequena sequência de textos como uma conversa que se inicia sob a luz da tecnologia escrita, sem a pretensão de se prender demais as suas gramáticas e racionalidades, sem eliminar uma boa conversa aos sons e aromas da vida que pulsa sob o agito dos dias.

Como definimos tempo? E o que estamos querendo dizer quando falamos em espaço?

Tempo e espaço parece ser um ponto importante para começarmos. Com o advento das tecnologias digitais e em rede inaugurou-se novas formas interativas entre seres humanos. Desta forma, não é exagero dizer que estamos vivendo um momento muito sério de reconfiguração da nossa percepção do tempo e do espaço.  De um tempo marcado e cronometrado, passamos para um tempo líquido, fluído, atemporal. Muitos tempos em um único tempo.
Durante a modernidade intensificou-se a ideia de delimitação e fragmentação do tempo, sob a lógica industrial e de quadriculamento. Fragmentou-se os dias, criou-se os turnos e as jornadas de trabalho. Horários marcados por sinais sonoros: sirenes, apitos, sinos. Saiu-se de uma perspectiva de tempo cíclico, movido principalmente pelos fenômenos da natureza, para uma perspectiva linear do tempo, pautada fortemente nos relógios, na administração dos tempos da vida. Na contemporaneidade começa-se a viver uma nova perspectiva, pois o tempo parece não mais existir nesta forma tão marcada. Um exemplo: podemos abrir nosso navegador de Internet e nos conectarmos com várias pessoas ao mesmo tempo e que podem estar em diversos lugares do mundo, com horário bem diferentes um dos outros.
Nesta nova perspectiva corre-se o risco de uma aceleração caótica, uma sensação de tempo sem tempo, onde se quer fazer sempre mais em menor espaço de tempo. Uma tentativa de imitação das abas no navegador que nos permite zappear em vários sites ao mesmo. Isso vai produzindo formas de existência, provocando muitas vezes uma ideia de que não se tem mais tempo para analisar e refletir. Os discursos das novas administrações ou gestões, fomentam a ideia de que tudo precisa ser agilizado sob uma ótica acelerada e quanto mais produtiva melhor. 
Dar-se tempo e espaço para refletir e tomar decisões, é uma negação a produtividade, nesta nova forma de perceber as temporalidades da vida. É importante ressaltar que esta dinâmica temporal nos abre um campo enorme de possibilidade. Inclusive uma de suas maiores promessas é proporcionar mais tempo para que possamos fazer coisas de nosso interesse. É importante lembrar que sob estas novas formas temporais da existência, sopram ventos nem sempre tão favoráveis. Alimenta-se uma nova lógica, sem barreiras temporais, que permite nossa inserção completa (corpo e alma administrados), subjetivamente falando. Nos próximos tópicos abordaremos mais a fundo estas lógicas que sopram no lado sombrio desta nova percepção sobre o tempo. 
Por fim, acabo de lembrar da promessa de escrever sobre a noção de espaço nesta nova lógica contemporânea, assunto que será retomado nas próximas postagens.

E para vocês tempo e espaço, como definir em tempos de tecnologias digitais em rede?

Um comentário:

  1. Tempo e espaço... Bom, olhe como as coisas estão em profunda conexão. Não vou comentar - ainda - quero neste momentos apenas postar um trecho que li num livro hoje pela manhã, dentro do trem, indo a POA - aproveitando o tempo!
    "Medir, senhora, é comparar. só são, entretanto, suscetíveis de medida as grandezas que admitem um elemento como base de comparação. Será possível medir-se a extensão do espaço? De modo nenhum. O espaço é infinito, e sendo assim, não admite termo de comparação. Será possível avaliar a Eternidade? De modo nenhum. Dentro das possibilidades humanas o tempo é sempre infinito, e no cálculo da Eternidade não pode o efêmero servir de unidade a avaliações."
    Que livro é?
    De filosofia?
    Não não... ou... quem sabe?
    Fonte: O homem que calculava - Malba Tahan - 81ª edição - página 81.

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